24/02/2008

E O OSCAR VAI PARA...


Todo o ano todo mundo diz que o Oscar não vale porra nenhuma, afinal Kubrick nunca ganhou um Oscar, Cidadão Kane não ganhou Oscar de melhor filme... Mas todo o ano, todo mundo fica de olho na TV para ver os ganhadores, assiste os filmes indicados e torce por um ou mais deles.

Não vou fugir à regra. Eis minha modesta lista. Escolhi apenas algumas categorias (as mais relevantes) e coloco os que gostaria que ganhassem e os que acho que vão ganhar. É sempre divertido.

A gente tem que destacar que uma BLOGUEIRA pode ganhar Oscar de roteiro. Sim, a Ex-stripper Diablo Cody começou a escrever sua história num blog e o escrito deu origem ao excelente filme JUNO, que concorre a roteiro original. Sorte pra ela em nome de todos os blogueiros!

Enfim, minhas apostas:

ANIMAÇÃO

GANHA: Ratatouille
GOSTARIA QUE FOSSE: Persépolis
COMENTÁRIO: Persópolis é genial e conta a problemática do induísmo no Irã. Mas o filme do Rato tem a franquia da Disney e sabe como é...

ATRIZ COADJUVANTE

GANHA: Cate Blanched (Não estou lá)
GOSTARIA QUE FOSSE: Cate Blanched ;-) (Não estou lá)
COMENTÁRIO: Ela não vai ganhar a estatueta de melhor atriz, mas vai levar coadjuvante interpretando o Bob Dylan sem ser piegas. A mina é o cara!

ATOR COADJUVANTE

GANHA: Javier Bardem (Onde os fracos não têm vez)
GOSTARIA QUE FOSSE: Javier Bardem (Onde os fracos não têm vez)
COMENTÁRIO: Não tem pra ninguém. Ele tem uma cara de louco assustadora como matador no filme "Onde os fracos não têm vez". Está genial. Ele é um puta ator, quem viu "Mar adentro" sabe do que estou falando.

ATRIZ

GANHA: ??? Marion Cottilard ????? (Piaf)
GOSTARIA QUE FOSSE: Ellen Page (Juno)
COMENTÁRIO: A Ellen está muito bm nesse filme, mas o filme é muito pop pra academia premiá-lo. Não vi a Marion, mas pelo que lí ela está impecável como Piaf.


ATOR

GANHA: Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)
GOSTARIA QUE FOSSE: Johnny Depp (Sweeney Tood)
COMETÁRIO: Johnny Deep é o ator mais genial de nosso tempo. Multi-faces, inteligente e cult (embora pop), ele se coloca acima da média no último filme do Tim Burton, uma espécie de Edwards Mãos de Tesoura do Mal. Entretanto, a Academia vai preferir o Daniel Day-Lewis pois seu filme é mais "americano", assim como seu personagem no excelente "Sangue Negro", o que facilita a identificação com o filme.

DIRETOR

GANHA: Paul anderson (SANGUE NEGRO)
GOSTARIA QUE FOSSE: Paul anderson (SANGUE NEGRO)
COMENTÁRIO: Sangue Negro é mais "fechado" que os demais. "Onde os fracos..." se perde no caminho, o que é culpa dos diretores.

FILME

GANHA: Sangue Negro
GOSTARIA QUE FOSSE: PERSÉPOLIS (que nem indicado pra melhor filme foi...)
COMENTÁRIO: Gostaria que fosse Juno, mas Sangue Negro também merece. "Juno" é muito legal, mas para ganhar Oscar de melhor filme, tem que ser um filmão. O que "Sangue Negro" realmente é e "Onde os fracos não têm vez" quase é.
Persépolis é melhor que todos eles junto!

E quais são teus favoritos?

21/02/2008

AVE LÚCIFER II




Lúcifer se achava tão lindo quanto Deus.

Mas, ao abrir as asas em triunfo,

Caiu...

...

...

Deus chorava, solitário em Seu poder Absoluto

E Lúcifer ria sem razão...

Hoje Lúcifer está sentado em algum lugar profundo

de onde há de vir a PUNIR

os vivos e os mortos.



Lúcifer ainda rí






EDNALDO TORRES FELÍCIO
NOITE DE ECLIPSE

eclipse lunar 20 de fevereiro 2008


Lua de São Jorge


(Caetano Veloso)


Lua de São Jorge, lua deslumbrante

Azul verdejante, calda de pavão

Lua de São Jorge cheia branca inteira

Oh minha bandeira solta na amplidão

Lua de São Jorge, lua brasileira

Lua do meu coração

Lua de São Jorge, lua maravilha

Mãe, irmã e filha de todo esplendor

Lua de São Jorge brilha nos altares

Brilha nos lugares onde estou e vou

Lua de São Jorge brilha sobre os mares

Brilha sobre o meu amor

Lua de São Jorge, lua soberana

Nobre porcelana sobre a seda azul

Lua de São Jorge, lua da alegria

Não se vê o dia claro como tu

Lua de São Jorge serás minha guia

No Brasil de norte a sul

17/02/2008

Duas frases que me definem



"Sou tímido e espalhafatoso, torre traçada por Gaudí"
Caetano

e

"Sou sem sentido para o Céu, sem interesse pro inferno"
Marcelo Nova


Elas também definem minha noite.

15/02/2008

MILLÔR FERNANDES



Poesia Matemática

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo octogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas dc Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar.
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade como, aliás, no resto da
Sociedade.

12/02/2008

Ai, que prazer não cumprir um dever!


LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

31/01/2008

ORAÇÃO AO TEMPO

Nada mais propício do que uma ORAÇÃO AO TEMPO, depois de meu post de aniversáro:


Oração ao Tempo
Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

28/01/2008

POST DE ANIVERSÁRIO (diga 33...)


Hoje completo 33 anos de vida.

33 anos, a idade de Cristo. (Embora Cristo teve todas as idades até 33, ou seja quem tem 10, 18, 2, 29, 31 anos também tem a idade de Cristo. Menos quem tem 34, pois o coitado finou-se antes de completá-los... Tadinho.)

Mas eis-me aqui. Sobrevivi a algumas coisas... Um apêndice supurado, 2 pneumonias, uma bronquite, um capotamento de carro, 2 crises de depressão, uma tentativa de suicídio, algumas mulheres chatas e outras tantas geniais... Também tive a sorte de não ser encontrado por nenhuma bala perdida, nenhum meteoro, nenhuma cratera de metrô... Serei um Hellraiser? (hehehe)

Nada me assustou mais do que ser internado numa clínica com depressão. Aquilo foi descer ao Inferno. Agora, sinto que estou escalando as paredes do Purgatório. Sei lá se chego ao Paraíso, mas vejo anjos em minha jornada e eles são minha esposa, minha filha, minha família, meus verdadeiros amigos e acreditem, meu cão. São Anjos lindos e vejo luz nos olhos de todos eles.

Não troco o homem que sou pelo jovem que fui, pois o jovem que fui fez crescer o Homem que sou.

Acho que meu maior aprendizado foi perdoar-me de minhas imperfeições. Aceitar-me humano e falível foi um desafio difícil, mas decisivo para meu bem-estar.

Minha esposa e filha dependem de mim, mas aprendi que tenho que ficar bem para que fiquemos bem. Como cuidá-las cutucando minhas feridas e expondo-as no espelho?

À medida em que o lutador envelhece, acumula cicatrizes, que o deixam mais belo e impõem respeito aos adversários. O maior adversário de todo o lutador é sua própria imagem no espelho. Aceitar o tempo é aceitar-se. Aceitar-se é fortalecer alma e uma alma fortelecida é que faz o homem conduzir sua família e sobreviver aos impulsos negativos.

Ainda tenho impulsos negativos. Terei para sempre. Procuro aprender a lidar melhor com eles e apreender as lições do dia anterior.

Um dia por vez. Um degrau por vez. Uma luta por vez.

Hoje, faço 33. Estou vivo, sou vivo, sou feliz.




EDNALDO TORRES FELÍCIO
33 anos e algumas horas

26/01/2008

OS DEZ MELHORES FILMES QUE JÁ VI







10. NOFERATU: O melhor filme de terror já feito. Sem computadores o diretor só usa sombras e um ator fantástico para dar vida ao vampiro mais medonho que já vi. O ator era tão genial, que anos mais tarde foi feito um filme chamado A SOMBRA DO VAMPIRO, que dizia que o ator Max Schreck, que fez o Nosferatu era um vampiro de verdade. Ah, Nosferatu foi feito em 1922! É o décimo em minha lista.

9. UM CORPO QUE CAI: Podia ser Festim Diabólico, podia ser Os Pássaros, qualquer filme do Hitchcok... Mas Um corpo que cai é para mim seu melhor (por desempate técnico, milésimos de segundo ou saldo de gols). Um homem que tem fobia à altura e tem que descobrir se a mulher que ele amou e que morreu está viva de novo ou tudo é loucura de sua cabeça doente. Sinto a fobia dele toda a vez que revejo o filme. Hitchcok faz a escada ficar graaaaaaaande lá embaixo...

8. O PODEROSO CHEFÃO (TRILOGIA): Juro que fiquei com dó de escolher apenas um filme desta genial trilogia que conta com os soberbos Marlon Brando e Al Pacino vivendo inesquecíveis Corleones. Filme pra macho. História de gãngster.

7. Dogville: O filme com a belíssima Nicole Kidman é daqueles que te perturbam de um jeito como se fosse um soco no estômago. O diretor optou por não fazer cenários, o filme tem uma linguagem quase de teatro, não há portas, paredes e todos os escrúpulos são falsos. Onde está a bondade humana, se é que ela existe?

6. LARANJA MECÂNICA: Kubrick maravilha o espectador! O líder de uma gangue é submetido a uma experiência para se adequar à sociedade: Lavagem cerebral? Talvez...

5. 2001 – Uma odisséia no espaço: O filme começa na pré-história com macacos/homídeos e termina no espaço com um computador rebelde. No meio de tudo isso, Danúbio Azul, o Cosmo, o Ser-Humano, um computador que não aceita ordens e uma aula de cinema.

4. Lawrence da Arábia: Um oficial inglês vai para a Arábia e se apaixona pelo lugar. É o filme com algumas das cenas mais belas que já vi. Seqüências lindas do deserto. Poesia para os olhos. Tem uma cena, aliás, que é fantástica: por detrás da areia, surge um navio... Lindo, lindo, lindo...

3. CASABLANCA: Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Amor impossível em tempos de guerra. Pode parecer batido, mas não é. Belíssimo filme, pra ver acompanhado da melhor gata que você conseguir. E vibrar com cenas inesquecíveis como a banda francesa tocando a Marselhesa depois dos alemães mandarem que ela tocasse o hino da Alemanha. Du karai!

2. FELLINI 8 ½: Um diretor sem idéias para fazer um filme. Enquanto isso, ele relembra de todas as mulheres de sua vida. Fellini é o Garrincha do cinema. Suas cenas são improváveis e desconcertantes.

1. O SÉTIMO SELO: Um cavaleiro medieval, vindo das cruzadas e se questionando sobre Deus, encontra a Morte e a desafia para um jogo de xadrez. Genial. O melhor que já vi.


Esta lista é o que penso hoje, dia 26 de janeiro de 2008, mas confesso que há tempos ela não tem mudanças significativas. E a tua lista qual é?

Té +

24/01/2008

22/01/2008

DEFORMADORES DE OPINIÃO

Minha opinião in(con)formada
que Formadores de Opinião
insistem em (trans)formar...


Querem moldar minha opinão sobre como:
comer
pensar
foder
beijar
amar
matar
morrer
viver
consumir


Acham que podem
pelo jornal mudar
meu voto
meu jeito
meus sonhos
minhas angústias
meus delírios
meus gostos
meu eu (quem sou eu?)

Deformadores de Opinião
Com suas gravatas e suas roupas "descoladas" (tudo falso)
querem que EU seja
um RE TUM BAN TE
IMBECIL
como eles são.

Com sua cólera
seu medo
seu tédio
por detrás dos óculos
dos óculos
dos óculos
meninos com medo da mãe.


EU FODO QUEM EU QUERO!
EU CONSUMO O QUE QUERO!
ME FODO E ME CONSUMO
DE ACORDO COM MINHA PRÓPRIA OPINIÃO.

Opine, não...



EDNALDO TORRES FELÍCIO

14/01/2008

LEMINSKI...


quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

PAULO LEMINSKI


LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito
são suas obras completas.

LÁPIDE 2
epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
mestre em disfarces

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces

09/01/2008

GENITÁLIA DE METAL - Zé Ramalho

Metrópolis Dourada

Numa bola de cristal
Adivinha-se quem vai nascer
Quem olhar as profecias
Sabe o que irá dizer
Aquela voz do oráculo
Genitália de metal
Brônzeos seios de Aldebarã

Na metrópolis dourada
Que projeta o amanhã
Da sua bola de carne
Mas você também é um cometa
Na sua cauda quero me agarrar
E nos cabelos poderei dormir
Ah! Menina colorida
Não bata as asas quando sair

08/01/2008

ESPERANÇA - MÁRIO QUINTANA


Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
- ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

06/01/2008

VAMPIRO


Beber o sangue
com poesia

Beber poesia
com sangue

Amado
e temido
Temido
e cobiçado

Sob a capa
um suspiro:
A moça geme
às mãos do Vampiro

cedendo-lhe o pescoço,
o sangue,
a alma,
a carne
a carne
a carne

ela experimenta
o último e mais intenso
arrepio -
desvario -
antes da morte
ou da vida

eterna

EDNALDO TORRES FELÍCIO
06/01/2008
16:35hs

04/01/2008

2008



Que 2008 traga
a paz deste dia no parque,
com crianças
e aves,
uma mulher (A mulher)
e meu cão;

Que 2008 traga
chuvas rápidas e refrescantes de verão,
dias de sol quente
mas com brisa calma
e algumas núvens no céu
para que possamos brincar
com os desenhos que elas formam;

Que 2008 traga
tragos de bom vinho
(que eu saiba tragá-los e não estragá-los),
tragos coletivos -
pois nenhum trago é bom, sem amigos por perto!

Que 2008 traga
um trabalho que me complete,
do qual me orgulhe
e que seja apaixonante
como o olhar roubado da mulher alheia;

Que meu ano tenha menos ódio
e mais gratidão,
menos medo
e mais pecado
menos ruído
e mais sons
menos gritos
e mais paz...


Que seja de paz, o ano que acabou de nascer.


EDNALDO TORRES FELÍCIO
04/01/2008
03:15hs

30/12/2007

Conto de reveillón

Se detestava cada vez que pensava nela.
Se detestava cada vez que imaginava o cheiro do corpo dela, o gosto da carne dela, a bunda dela na mão dele.
Tinha se detestado muito nos últimos dias...
Tinha enlouquecido de desejo e desilusão no útlimo encontro, tinha esquecido de como era ruim aquela sensação no peito, corroendo o amor-próprio, corroendo o próprio encanto.
Afinal, o que era ela em sua vida? Ou o que era sua vida sem ela?
Sabia que ela conhecera outras camas em outros sonhos. Sabia que ele era, dela, o pesadelo. Sabia que ela era, dele, a insônia.
E ele caminhava sozinho pela Rua Augusta. E ele tinha devaneios e mal via as mesas dos bares, espalhadas pelas calçadas sujas. E ele era um louco urbano pensando nela nela nela nela nela.
Foi perto do Vitrine, que viu a Outra. Talvez um pouco menor, talvez um pouco mais magra. Não tão bela. Mas servia. 100 pratas. 100 pratas. Sem perguntas. Sem romance.
No Hotel Savoy, ele torceu para que Ela encorporasse na Outra. Para que a Outra gemesse como Ela, para que Ela não fosse outra. Claro que não deu certo.
Ele se detestou e continuou animalesco, afinal, se não era Ela, a Outra lhe garantiria ao menos o gozo...
A noite de Ano Novo não livrou-lhe, afinal do velho fantasma: O velho maldito amor.



EDNALDO TORRES FELÍCIO
São Paulo, próximo à noite de reveillón

26/12/2007

WISKEY BAR... THE DOORS - Post Etílico pré reveilón



TRADUÇÃO DA MÚSICA

WHISKEY BAR/CANÇÃO DE ALABAMA


Então, me mostre o caminho
Para o mais próximo whiskey bar
Oh, não pergunte por que
Oh, não pergunte por que

Se nós não encontrarmos o caminho
Para o próximo whiskey bar
Eu acho que vamos morrer
Eu acho que vamos morrer
Eu acho, eu acho
Eu acho que vamos morrer

Oh, lua de Alabama
E hora de dizer adeus
Nós perdemos nossa boa e velha mãe
E precisamos de whiskey, oh, você sabe por que

Então, me mostre o caminho
Para a próxima garota
Oh, não pergunte por que
Oh, não pergunte por que

Se nós não encontrarmos o caminho
Para a próxima garota
Eu acho que vamos morrer
Eu acho que vamos morrer
Eu acho, eu acho
Eu acho que vamos morrer

Oh, lua de Alabama
E hora de dizer adeus
Nós perdemos nossa boa e velha mãe
E precisamos de whiskey, oh, você sabe por que

25/12/2007

POST DE NATAL

Numa manhã de Natal, nada como o genial Bukowski

CONVERSA ÀS TRES E MEIA DA MADRUGADA

às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.

com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?

e ela entra
com o cabelo nos rolinhos
e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho

e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos;
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem procurado emprego
nos últimos 32 dias.

você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.

não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,

e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.

e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.

22/12/2007

DESABAFO

Estou cansado (verdadeiramente cansado) de entender razões alheias sem que ninguém entenda as minhas.

12/12/2007

MANO CHAO




Mi vida, lucerito sin vela,
mi sangre de la herida,
no me hagas sufrir más.
Mi vida, bala perdida
por la gran vía, charquito de arrabal.
no quiero que te vayas,
no quiero que te alejes cada día más y más.
Mi vida, lucerito sin vela (aquí no pegamos los ojos)
mi vida, charquito d'agua turbia,
burbuja de jabón,
mi último refugio, mi última ilusión,
no quiero que te vayas cada día más y más.
Mi vida, lucerito sin vela,
mi sangre de la herida,
no me hagas sufrir más.
(aquí no pegamos los ojos, aquí no pegamos los ojos)
Mi vida

08/12/2007

MURILO MENDES

Pré-história

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.

03/12/2007

Aqui tem um bando de louco...

"Sim, foi que nem um temporal
Foi um vaso de cristal
Que partiu dentro de mim"
Chico Buarque e Francis Hime


Meu time caiu para a Segunda Divisão. Um tanto de dor e um tanto de amor nesse drink amargo de domingo.
Meu time caiu para a Segunda Divisão. Não chorei, a dor calou minhas lágrimas e o silêncio encheu a sala de casa, uma da milhares de casas quietas no fim de tarde deste 02/12/07.
Meu time caiu para a Segunda Divisão. Queda esperada. Time ruim. Clube por tempos acéfalo. Meninos que corriam assustados.
Meu time caiu... mas me orgulho de ser Corinthiano.
Cantamos, sonhamos, rezamos. Perdemos. Mas a Elis não dizia há décadas que "nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar"?
Tenho orgulho de ser Corinthiano. Nunca desistir de acreditar, de sonhar, de sorrir. Tenho orgulho de ser parte de um time do povo. Nem playboys nem mauricinhos, somos gente do Povo. Da periferia. Ou como cantam pejorativamente os adversários: da Favela (como se isso fosse demérito!).
Somos aquele tipo de gente que aguentou as gozações no trabalho, enquanto abria a marmita no almoço, ou na fila do ônibus - interminável fila - enquanto o ônibus demorava para chegar lotado, cuspindo gente pelas bordas. Somos aqueles que com o coração dilacerado de dor e tristeza, humilhado por gozações, tivemos forças para abrir um sorriso e dizer com fé em São Jorge: "ano que vem melhora".
"Ano que vem melhora..." E não é isso que espera o brasileiro ano a ano, crise à crise, disfarçando o nó na garganta, disfarçando o salário mirrado para comprar brinquedo para o filho, disfarçando a dor de todo um ano para três dias e meio de um Carnaval que sempre acaba em Cinzas?
Nas arquibancadas, o Corinthiano cantava para sí mesmo, pois ele É o time. O time de "maloqueiro e sofredor" que sofre, chora e sonha. Mas tem orgulho de suas raízes e da matéria bruta com que ele é feito: suor, esforço, garra.
Num canto, a torcida pede: "vamos, vamos meu Timão, não pára de lutar", pois ela (Torcida) nunca parará sua luta na fábrica, na periferia, na lotação, na agência de emprego, no cotidiano, na vida,
na Série B da vida.
"Aqui tem um bando de loucos, loucos por ti Corinthians..."

EDNALDO TORRES FELÍCIO
03/12/2007

02/12/2007

Salve Jorge




Oração a São Jorge

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.

Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.

São Jorge Rogai por Nós.


Meu São Jorge, ajudai o Timão...

30/11/2007

trecho do livro Sempre Zen, da Monja Coen



' Uma Monja foi visitar a Mestra num Mosteiro. A Mestra olhou diretamente para ela e disse: "Por que você trouxe toda essa multidão com você?". A Monja, que estava sozinha, olhou para trás. A Mestra disse: "Não olhe para trás, olhe para dentro".

Será que estamos sós? Será que levamos conosco multidões? Há quem venha com os seres amados. Há quem ande com os que mais detesta para todos os lados.

Não podemos ficar olhando para trás. Dizem que quem olha para trás bate com a cara no poste. E não é assim mesmo? Costumamos olhar para o que já fizemos, ficamos remoendo situações, eventos, o que falamos ou deixamos de falar em certo momento. É preciso ficar livre.'

JOÃO CABRAL DE MELLO NETO - Morte e Vida Severina



ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO
UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUEM MATEI NÃO!"


— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.

— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.

— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?

— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.

— E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?

— Onde a caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.

— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?

— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.

— E o que guardava a emboscada,
irmão das almas
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?

— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mas garantido é de bala,
mais longe vara.

— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?

— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.

— E o que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?

— Ter um hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.

— Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas
que podia ele plantar
na pedra avara?

— Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
os intervalos das pedras,
plantava palha.

— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?

— Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.

— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?

— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.

— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?

— Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.

— E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente do chumbo
que tem guardada?

— Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.

— E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.

— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.

— E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.

— Vou eu que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.

— Mais sorte tem o defunto
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.

— Toritama não cai longe,
irmãos das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.

— Partamos enquanto é noite
irmãos das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada.


SALVADOR DALI

NAVEGAR É PRECISO, VIVER, NÃO É PRECISO...
fernando pessoa
enquanto me preparo para viajar de barco com minha família em dezembro...

29/11/2007

FERNANDO PESSOA

Eros e Psique

...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio Na Ordem Templária De Portugal)

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

********************************************************************************

postagem dedicada à minha amiga Nana

28/11/2007

DECLARAÇÃO DE AMOR NUM MOMENTO DIFÍCIL


Eu nunca vou te abandonar(pq eu te amo)
Eu nunca vou te abandonar(pq eu te amo)
Eu sooooooooooooou CORINTHIANS!!!
Eu sooooooooooooou CORINTHIANS!!!

Eu nunca vou te abandonar(pq eu te amo)
Eu nunca vou te abandonar(pq eu te amo)
Eu sooooooooooooou CORINTHIANS!!!
Eu sooooooooooooou CORINTHIANS!!!

Eu nunca vou te abandonar(pq eu te amo)
Eu nunca vou te abandonar(pq eu te amo)
Eu sooooooooooooou CORINTHIANS!!!
Eu sooooooooooooou CORINTHIANS!!!

Eu nunca vou te abandonar(pq eu te amo)
Eu nunca vou te abandonar(pq eu te amo)
Eu sooooooooooooou CORINTHIANS!!!
Eu sooooooooooooou CORINTHIANS!!!
TUAS VISITAS AINDA QUE ANÔMIMAS
TORNAM ESTE, O BLOG MAIS FELIZ DA INTERNET...

Filha e cão

Frio gostoso
A menina dorme
o cachorro com ela
enquanto o vento, curioso,
tudo espia, da janela.


Para minha filha Ana Beatriz e nosso cão


EDNALDO TORRES FELÍCIO
29/11/07

23/11/2007

SER MÕES

Escritos
Excristos

Esquisitos
os dizeres de Cristo...

Ex quesitos?



EDNALDO TORES FELÍCIO

LUZ

Dura
Impura
Mis(s)tura
Nem toda
loucura
cura...

19/11/2007

VINICIUS

A volta da mulher morena


Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus [últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!

08/11/2007

100 100 Tido

verde
chuva
remoto controle
registro geral
grosseria
preguiça
telefone
ócio
100 k minho
100 100 tido

resumo do dia 08/11/07

26/10/2007

A PORTA MÁGICA

Você tem força para abri-la?
Coragem para empurrá-la?
Despudor para ultrapassá-la?

Ela convida
Ela te convida
Mas te intimida.

Você tem mãos que abrem maçanetas?
Você tem pés que caminham no escuro?
Você tem mente que suporta o delírio?

Ela convida
Ela te convida
Mas te intimida.

Você tem olhos despertos?
Você tem asas impermeáveis?
Você tem doces estorvos?

Ela convida
Ela te convida
Mas te intimida.

As paredes se afastam
(coxas grossas mostrando o sexo)
Você diamantes na ponta dos dedos?

Ela convida
Ela te convida
Mas te intimida.

EDNALDO TORRES FELÍCIO
madrugada de 26/10/07

18/10/2007

Álvaro de Campos

Começo a conhecer-me. Não existo.
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Questão matinal

Os que passam pela rua, apressados
procurando comida no trabalho
se escondendo de seus sonhos, estão certos?

Ou certos estamos nós, bailarina,
que comemos sonhos
e passamos fome?

EDNALDO TORRES FELÍCIO
18/10/07
04:00hs

15/10/2007

Ecos - Floyd

Lá no alto o albatróz pára imóvel no ar
E bem debaixo de ondas agitadas
Em labirintos das cavernas de corais
O eco de uma maré distante
Vem projetar-se sobre a areia
E tudo é verde e submarino
E ninguém nos apresentou á terra
E ninguém sabe o “onde” e o “por quê”
Porém alguma coisa encara
Alguma coisa tenta
E começa a escalar em direção a luz

Estranhos que passam na rua
Por ventura dois olhares separados se encontram
E eu sou você e o que eu vejo sou eu
E eu pego você pela mão
E te conduzo pela terra
E ajude-me a entender o melhor possível
E ninguém nos chama para a terra
E ninguém passa por lá vivo
E ninguém fala
E ninguém tenta
E ninguém voa ao redor do sol

E agora este é o dia da sua queda
Sobre meus olhos acordados
Convidando e me incitando a levantar
E através da janela na parede
Atravessam em raios de luz solar
Um milhão de embaixadores brilhantes da manhã
E ninguém canta para mim canções de ninar
E ninguém me faz fechar os olhos
Por isso eu abro as janelas totalmente.

RUÍNAS

Minha depressão foi uma erupção vulcânica que deixou meu espírito em ruínas.
Ainda não sei o que fazer com elas.
Confesso estar perdido.
Para onde olho, vejo devastação. Vejo escombros. Teriam alicerces???
O magma queimou tudo, derrubou tudo, devastou tudo. Em volta de mim (do que restei) sobrou caos.
Minha depressão foi uma erupção vulcânica que deixou meu espírito em ruínas.
Aprendi, contudo, que os terrenos formados por erupções são férteis. O trauma do desastre passará e reconstruirei... algo. Não importa o que, agora.
Agora, é hora de juntar pedras.

13/10/2007

Dica de vídeo: A CONCEPÇÃO


Essas são imagens do excelente fime A CONCEPÇÃO.
O filme me lembrou o papo com um colega sobre ATENTADOS POÉTICOS. Sim, o filme propões atentados poéticos contra a sociedade. Um grupo de amigos conhece um cara chamado "X" e com ele criam um movimento chamado CONCEPCIONISTA, que na real, é um grupo de amigos que transam entre si, se drogam de todas as formas e aplicam golpes na sociedade, iludindo-a e mostrando sua pobreza intelectual. O filme tem cenas de SUPER 8 muito legais. Você vai se lembrar de LARANJA MECÂNICA, CLUBE DA LUTA e TRANSPOTING mas numa abordagem tupiniquim.
O filme aborda bem a despretensão da nossa geração que se consome como uma cobra engolindo outra cobra, ou uma droga consumindo outra droga. ("O movimento não era pra ser sério" - diz uma personagem)
Filme que te faz pensar não é pra qualquer um. Tem cenas de nudez e consumo de drogas. Se você se choca com isso não veja, se você acha que a verdade crua cheira carne de açougue, veja.
Vi e gostei.

Corinthians e a quebra do jejum

Sou do povo faço parte dele.
Osmar Prado narrou depois do jogo de 77: "A cidade é do povo."
Cara, isso é Corinthians. Uma torcida que cresceu apesar dos anos sem título.
É uma das 2 maiores do País, uma das maiores do mundo.
Um time com história.
Uma diretoria ladra e corrupta não pode manchar tudo isso.
Sei que tem gente aqui que não quer discutir FUTEBOL, quer apenas falar que sua torcida é mais bonita e tal... Mas indescutívelmente, o CORINTHIANS tem uma hist´roria linda no futebol Brasileiro, seja na DEMOCRACIA CORINTHIANA (em plena ditadura!), seja em 77, seja em 90...
É uma história linda que Dualibs não mancharão!
O Corinthians não é o único time grande do Brasil, mas sem ele a história do futebol brasileiro seria menos bela.
Todo mundo aqui tem uma história com seu time. Eis a minha:
Eu sentava na sala com meu pai para ouvir jogos no rádio ou ver na TV. A gente não morava em Sampa pra ver o Timão no campo.
Meu pai fiava o bigode durante as partidas, a gente torcia junto.
Meu pai fez promessa e só cortou o cabelo quando o Timão foi campeão (ele tinha cabelos enormes). Eu era muuuuito novo e lembro do meu pai chorando quando acabou o jogo. Não lembro de mais nada.
Depos, eu fiz 6 anos e mau pai me deu de presente um uniforme do Timão. Lembro como se fosse hoje.
Aí, veio a DEMOCRACIA com CASÃO E DR SÓCRATES.
Aí, veio o NETO e o MARCELINHO
Aí, veio o TEVEZ.
Minha filha nasceu em 96, ano que fomos campeõs brasileiros.
Hoje, ela vai aos jogos comigo. Nós sentamos no Pacaembú e gritamos e torcemos.
São três gerações. Um só amor.
CORINTHIANS MINHA VIDA, CORINTHIANS MINHA HISTÓRIA, CORINTHIANS MEU AMOR...

12/10/2007

MÔNICA VELOSO

li uma ótima definição para a dama que posou pra Playboy e FUDEU o Senador:

"Essa vaca não merece uma única punheta de qualquer brasileiro."

e tenho dito!

11/10/2007

Intermitente

Daqui a pouco o dia amanhece.
Não estou sentindo sono.
Acho um saco ter que ir trabalhar amanhã e forjar um riso que não vem de dentro de mim.
Não tenho paciência para falar com ninguém.
Gostaria de me esconder de mim mesmo e nunca mais me achar.
Não há lógica em passar o dia e a noite trancafiado dentro deste apartamento.
Intermitente. É assim que tem sido meu humor. Intermitente. Ao mesmo tempo em que não quero sair da vida, não vejo razões lógicas para continuar nela.
O sol já vai nascer. Ele desafia. Filho da puta, ele desafia a gente a sair de casa. Nessa semana, perdi todos os dias. Só saí quando fui obrigado e ainda assim sai pouco, rápido e ineficiente. Perdi a aposta com o sol. Ele brilhou e eu fiquei no escuro. BEM QUE PODIA ESCURECER E CAIR UMA TEMPESTADE SOBRE A CIDADE!
Estou trocando o dia pela noite. Na noite é mais fácil de se esconder. Tem sombras, tem silêncio, tem morcegos e mendigos sujos. De dia, tem o stress massacrante, gravatas correndo por todo o lado, saltos altos pisando em subalternos, empregados que se jogariam pela janela se não tivessem que pagar contas no final do mês.
O sol já vai nascer. Se ele tocar minha pele, viro cinzas. AI, COMO ISSO SERIA BOM!

08/10/2007

CIVILIDADE

Moro em São Paulo. A maior metrópole do País. Uma das maiores do mundo.
Aqui tem teatro, tem cinema. Grandes restaurantes e botecos deliciosos. Tem Universidades importantes, tem Indústrias, tem escritórios... Tem quase tudo! Menos civilidade.
Não há gentileza nem cordialidade entre as pessoas.
Há pressa. Há cobiça. Há disputa.
Não há humanidade.
As pessoas não têm rostos, nem nomes, nem vizinhos, nem amigos. Têm posse. Têm ânsia por possuir mais. Têm fome de poder, mas não podem sentir fome, pois não há tempo. (comam sanduiches, Colonizados!)
O Rolex passa do pulso do apresentador para o poço do crime. Há pressa para chegar ao trabalho, há cobiça por mais glória, há disputa por mais ostentação, não há Humanidade no trato entre as pessoas.
O burguês maltrata o periférico cidadão, que inveja o burguês central. Ambos só se encontram no farol. Entre eles um rolex... e uma arma. Entre eles um abismo triste. Não percebem que são faces da mesma moeda esfacelada que virou nosa cidade.
Não há tempo para percepções, há pressa para acumular mais, há cobiça pela conquista alheia, há disputa pelo sonho dourado que o consumismo promete. Não há Humanidade nem Santidade numa São Paulo descrente de si mesma.

"Somos milhões de transatlânticos falidos em pleno mar da tranquilidade"
Zé Ramalho



ednaldo torres felício
09/10/2007

05/10/2007

NUIT - Raul Seixas

"E quão longa é a noite eterna do tempo
se comparada ao curto sonho da vida..."

Barraca de Beijos

Barraca de Beijos
Para Isabela

beijos doces
à granel.
A senhorita compra um
e ganha o céu...

beijos doces...
vai um mocinha?
mulher bonita não paga...
mas se embriaga...

EDNALDO TORRES FELÍCIO

02/10/2007

POST IMPORTANTÍSSIMO


O site Free Burma! está convocando para um protesto internacional na 5a feira, via internet, em apoio ao movimento popular em Mianmar (Burma) e contra a violência com que os protestos do povo estao sendo reprimidos. Será o International Bloggers' Day for Burma, quando blogs ao redor do mundo publicarao apenas 1 post - uma das imagens da campanha e o slogan 'One blogpost for Burma'. Veja a lista de quem ja aderiu aqui - sao mais de 1,200 nomes. Veja as imagens para serem publicadas aqui. (fonte Blue Bus)
Sou o nro 2885

24/09/2007

'Eu poderia ter tido classe. Eu poderia ter sido um lutador. Eu poderia ter sido alguém, ao invés do vagabundo que sou'
Marlon Brando, em Sindicato dos Ladrões

e a chuva promete não deixar vestígios... 4 da matina, insone

Titulo da Música: Check Up
Artista:Raul Seixas
Letra:

Acabei de dar um check up
na situação
o que me levou a re-ler Alice no País das Maravilhas
Ja chupei a laranja mecânica
e lhe digo mais
Plantei a casca na minha cabeça
Acabei de tomar meu Diempax, meu Valium 10 e outras pílulas mais.
Duas horas da manha, recebo nos peito um Triptanol 25 e vou dormir quase em paz.

E a chuva promete nao deixar vestigio.
E a chuva promete nao deixar vestigio.
E a chuva promete nao deixar vestigio...

14/09/2007

BUKOWSKI - O BÊBADO GENIAL

SPLASH

A ilusão é de que você está simplesmente
lendo este poema
a realidade é que isto é
mais que um
poema.
isto é o canivete de um mendigo
isto é uma tulipa
isto é um soldado marchando
através de Madrid.
isto é você em seu próprio
leito de morte
isto é Li Po rindo
lá embaixo
isto não é a porra de um
poema.
isto é um cavalo adormecido
uma borboleta em
sua mente
isto é o circo do
demônio
você não está lendo isto
numa folha
a folha está lendo
você
pode sentir?
é como uma serpente. é uma águia esfomeada rodando pela sala

isto não é um poema. poemas são chatos
fazem você dormir

estas palavras forçam você
a uma nova
loucura

você foi abençoado, você foi atirado em uma
cegante área de
luz

o elefante sonha
com você
agora
a curva do espaço
se dobra e
gargalha

você pode morrer agora
você pode morrer agora como
todas as pessoas deveriam
morrer:
grandes,
vitoriosas,
escutando a música,
sendo a música,
retumbando,
retumbando,
retumbando.

12/09/2007

6 e quinze da matina de uma quarta feira qualquer

Às vezes, sinto uma vontade enorme de me matar. Vontade tão intensa quanto a vontade de tomar um sorvete.
Acabo não satisfazendo nenhuma vontade nem outra.
Mas juro que por vezes imagino a lâmina da faca cortando meu pescoço.
Não me sinto motivado para nada, nem mesmo para o suicídio, quanto mais para a vida. Isso me incomoda.
Meu casamento é frio. Serão todos casamentos frios?
Sinto como se meu peito se enchesse de nuvem escura. Núvem de desassossego, núvem de tempestade que nunca cai, só esconde o sol. Quem dera ao menos chovesse em mim!!!
Hoje levantarei e visitarei meus clientes com a mesma alegria que um robô sente ao ser ligado para cumprir seu papel em qualquer linha de montagem, hoje passearei com o cão e cuidadrei do peixe (maldito peixe que não come!), hoje me arrastaree pelo dia sem objetivo traçado. Hoje vagarei errante pelas horas. E de noite não sentirei alegria nem tristeza. Nem medo, nem recompensa.
Tenho vontade de cortar os pulsos, de marcar a pele com a faca. Fazer cortes fundos no braço, no peito, no pescoço. Mas não tenho coragem. Não tenho saco de me cortar e ter que limpar o sangue.
Tenho pensado em colocar a cabeça no forno e ligar o gás. Funciona? Demora pra morrer?
Não quero sentir o mal estar que senti quando tentei me asfixiar, é ruim, tão ruim que você acaba desistindo.
Gostaria de algo rápido. Algo me me fizesse simplesmente desaparecer.
Vupt! Acabou...

10/09/2007

Belinha

Dizem que sempre falta uma palavra e é verdade. Nesses anos todos eu sei que sim, que sempre falta uma palavra, é verdade. Verdade. Pois procurei por Belinha, depois de 50 anos, 50 anos, para dizer para ela essa palavra. Sempre falta uma palavra, verdade verdadeira. E eu fui para dizer para Belinha essa palavra.

Vesti meu terno, pus o chapéu e saí. Saí, foi. Como nos tempos em que era moço, feliz. Nos tempos em que me apaixonei por ela. Eu nunca pensei que um amor assim pudesse me deixar perdido, quase louco. Amor grande. Amor para sempre. Pois é. Vesti meu terno, pus o chapéu e peguei um ônibus até Santo Amaro. Sentou-se uma moça ao meu lado e era uma moça bonita. Ah, e o perfume era muito bom e eu conversei com ela, conversei muito com ela, muito, até chegar à casa pr'onde eu ia. A casa que vi construída. Que vi, tijolo por tijolo. Eu nunca morei nela, mas era lá que Belinha morava, casada com outro. Que teve filhos e teve netos. Que vive hoje sozinha e que nem sabe que eu vou lá, entrar naquela casa, que vou dizer o que tenho pra dizer, depois de 50, 50 anos, que sempre falta uma palavra. Uma única palavra, que vou levando com meu terno e meu chapéu. E uma agonia no coração, profunda. Profunda. Que sempre falta uma palavra. Era agora.

Desci no mesmo ponto e o ônibus se foi. E o bonde se foi, não tem mais. Nem a paz daquela rua. Só reconheço a esquina em que eu ficava, no bar, entre um café e outro, a ver a felicidade de Belinha, a casa agitada, os filhos pela calçada. Dei balas e brinquedos para eles, escondido, que ela nunca me via. Ficou um mistério, foi. Mas, no fundo, no fundo, Belinha sabia quem era. Eu tenho certeza, não me engano. Ela sabia que eu é que dava balas e brinquedos, escondido, nunca a abandonei, nunca deixei a vida dela sozinha. Que meu amor era eterno. Mas hoje ela vai ficar sabendo de uma vez. Eu vou dizer a palavra que eu guardei, que ficou engasgada durante 50, 50, 50 anos. Nos olhos de Belinha, é. Pra ela saber. Saber de uma vez o que eu quero dizer, depois de 50 anos.

O portão é amarelo, meio aberto. Há cheiro de jasmim, o mesmo cheiro, Meu Deus. A parede é amarela e meio aberta. A mesma parede. Eu fui invadindo, decidido como nunca. Mas eu sempre fui decidido. Fui moço forte, fibrento, de briga. No trabalho e na vida. Meu pai era assim e me ensinou. Mas o problema, posso dizer: foi ela. Belinha me deixou lento, sem força nenhuma. Sem decisão pra resolver aquela situação. Eu a amava tanto, ela me amava tanto e casou com outro. Na minha cara, na frente do meu nariz. Casou por vingança, não sei. Por dinheiro, não sei. Por indecisão. Porque quis fazer outro destino. Foi o fim, o começo do meu desasossego. Fiquei inseguro, fraco, acabado de tudo. Meu fim, tão moço que era. Minha morte no mundo.

Bati frato na porta, assim. Fraco. Mas não demorou muito para eu pensar em bater com todos os meus nervos na porta. E sacudir o nome dela. E tirar o chapéu porque eu havia suado muito. Um sol de muito tempo. Um sol antigo. Meu chapéu é quente. Meu chapéu e meu terno. O mesmo terno quente.

Disse o seu nome lá pra dentro. A casa escura, sem abrir. "Belinha", como sempre tive vontade de dizer. Não gritei, só disse. Estava ali para dizer a palavra que faltava, que sempre falta uma palavra depois de 50, mais de 50 anos.

Ela, ela.

Ela veio rastejando até a porta. Rastejando a sombra dos chinelos. Cansada e sozinha que ela estava. Veio e me olhou. Demorou olhando para mim. Olhou, olhou e me viu. O mesmo chapéu e o mesmo terno e o mesmo sol. Foi aí que Belinha me abraçou, abraçou. Meu Deus, Belinha me abraçou, me fechou naquela casa. Trancou. E era agora como nunca foi. Como nunca mais será. Uma palavra que ficou em mim, envelhecida e tratata. Pois é. Tratada como num coração de formol. De forma que resolvi dizê-la, ali mesmo da porta, sem entrar, não entrei, não sei, a mesma porta amarela, o mesmo jasmim, o mesmo jardim. Porque sempre falta uma palavra, depois de 40, 50, 60 anos, não sei. Sempre faltará uma palavra.

Ela disse que ouviu dizer de minha vida, sim. De mulheres, de famílias. Mentira. Que eu tive filhos. Mentira. Que eu tentei me matar. Mentira. Mesmo a morte eu esperava morrer com ela. Todo tempo havia esperança, havia. Esperança. Eu tinha pressa, depois de 50 anos eu tinha pressa. Ela me mandou sentar, tomar um café. Não quis. Passou a vontade, como passageira. Esperou eu falar. Pois é. E só depois de 50 anos, 50 anos ou mais, olhando para o fundo da boca, das mãos, dos olhos dela, no mesmo portão, porta amarela, com o cheiro de jasmim, eu disse a palavra, a palavra que faltava, que sempre falta uma palavra.

Falta.

outubro, 2005
Marcelino Freire nasceu em Sertânia-PE, no ano de 1967. Vive em São Paulo, vindo do Recife, desde 1991. É autor, entre outros, dos livros eraOdito (aforismos, 2ª edição, 2002) e BaléRalé (contos, 2003), ambos publicados pela Ateliê Editorial. Em 2004, idealizou e organizou a antologia Os cem menores contos brasileiros do século. Em 2005, lançou Contos Negreiros, seu primeiro livro pela editora Record. O conto "Belinha", acima, foi extraído do livro Angu de sangue (contos, 2000), também publicado pela Ateliê Editorial. Mais informações sobre autor e obra no eraOdito e aqui.

23/08/2007

Raul Seixas

Ontem, dia 21 de agosto, foi o dia da Saudade. Num dia 21 de agosto, Raul morreu. Celebramos essa data homenageando o maluco com uma passeata pelas ruas de Sampa, cantando suas canções e celebrando sua memória.
Postarei aqui uma homenagem. Raul foi o cara que mais influenciou minha juventude.
Viva Raul Seixas!!!

Magia de Amor
(Raul Seixas)

Me fascina tua morte mal morrida
E tua luta prá ficar em tal estado
E teu beijo, tão fatal, nunca me assusta
Pois existe um fim pelo sangue derramado

Me fascinam os teus olhos quando brilham
Pouco antes de escolher quem te seduz
E me fascinam os teus medos absurdos
A estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz

Me fascina a tua força, muito embora
Não consiga resistir à frágil aurora
E tua capa, de uma escuridão sem mácula

Me fascinam os teus dentes assustadores
E teus séculos de lendas e de horrores
E a nobreza do teu nome, Conde Drácula

17/08/2007

Auto-aviso

Não deixe que ela (sim, aquela que representa seu passado, a dor no peito, a forca no pescoço e o nó na garganta) estragar teus dias imediatamente vindouros.

Não deixer que ela estrague teu minuto seguinte.

Ela não vale isso.

Ela não vale nada.

Não deixe que ela te vença. Não deixe que ela faça com que você se sinta um maldito cruel. Você não é. Você não é. Você não é.

Não deixe que seu pensamento caia nela. Ela não merece sequer isso.

Ela te fudeu. Ela se fudeu. Ela que continue se fudendo.

Você, que continue lutando contra tua depressão. Sem se sentir vítima de nada, nem culpado por nada. AS COISAS SÃO. O QUE FICOU PARA TRAS ESTÁ ESCRITO! É HORA DE ESCREVER PARA FRENTE e nas páginas seguintes, ela não será citada.

Ela que fique no passado que é o lugar dela, amarelando como a foto no armário.

TODO CONTATO COM ELA É PERIGOSO.

Ela quer afastar você do que você mais ama.

Ela não vai conseguir, pois você não lhe dará espaço.

Ela foi um vício. Hoje é apenas incômodo.

Ok?

07/08/2007

Como estou agora...

A música do Chico, copiada abaixo, fala do momento que estou vivendo agora.
São estes conselhos que quero seguir para me (re)encontrar e (re)conquistar meus objetivos, ainda que, por enquanto eu não saiba ao certo qual(quais) é(são).
Está difícil, mas EU VOU CONSEGUIR SER O QUE SEMPRE FUI!!!!!!!
;-)

Espero que frases como "Está provado, quem espera NUNCA alcança" soem às almas de vocês, como soa à minha.

P.S.: Três posts seguidos com músicas do Chico... Talvez eu esteja um tanto Chicólatra, mas afinal...

BOM CONSELHO

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado ou você se cansa
Está provado que quem espera nunca alcança.

Venha meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com o seu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes
Antes de pensar
Vou atrás de tudo
Vindo não sei de onde
Devagar é que não se vai longe.

Eu ouço bem o vento
Na minha cidade
Vou para a rua
E bebo a tempestade

Vou para a rua
E bebo a tempestade

Para Marlene e Vágner

Essa música, o Chico Buarque fez para a Zuzú Angel, quando ela perdeu o filho assassinado pela ditadura.
Tenho uma cunhada que perdeu um filho com leucemia há uns 10 anos e nunca mais se recuperou. Sua vida perdeu o sentido e ela espera tristemente a própria morte. É talvez, a pesoa mais triste que eu conheço.
Ela nunca lerá esse blog e nem saberá que ao escutar essa música do Chico Buarque lembrei dela e lamentei pela morte de meu sobrinho e de minha cunhada, sabendo que a morte dela é pior, pois é uma morte em vida.

Pedaço de mim
Chico Buarque/1977-1978

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

O QUE SERÁ? (À FLOR DA TERRA)

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo

03/08/2007

entenderá se for você...

Meu bem, meu bem
será que você não vê,
não houve nada?
Só o passado rondando minha porta
feito alma penada...

hahahahahahahahahaha

Trecho do livro O lobo da Estepe sobre Depressão e depressivos

(...)


Outra era a de que pertencia ao grupo dos suicidas. E aqui é necessário esclarecer que não se devem considerar suicidas somente aqueles que se matam. Entre estes há suicidas que só o chegaram a ser por mero acaso, e de cuja essência do suicídio não fazem realmente parte. Entre os homens sem personalidade, sem características definidas, sem destino traçado, entre os homens incapazes e amorfos, há muitos que perecem pelo suicídio, sem por isso pertencerem ao tipo dos suicidas, ao passo que há muitos que devem ser considerados suicidas pela própria natureza de seu ser, os quais, talvez a maioria, nunca atentaram efetivamente contra a própria vida. O "suicida" - e Harry era um deles - não precisa necessariamente viver em relações particularmente intensas com a morte; isto se pode fazer sem que se seja um suicida. É próprio do suicida sentir seu eu, certo ou errado, como um germe da natureza, particularmente perigoso, problemático e daninho, que se encontrava sempre extraordinariamente exposto ao perigo, como se estivesse sobre o pico agudíssimo de um penedo onde um pequeno toque exterior ou a mais leve vacilação interna seriam suficientes para arrojá-lo no abismo. Esta classe de homens se caracteriza na trajetória de seu destino porque para eles o suicídio é a forma de morte mais verossímil, pelo menos segundo sua própria opinião. A existência dessa opinião, que quase sempre é perceptível já na primeira mocidade e acompanha esses homens durante toda sua vida, não representa, talvez, uma particular e débil força vital, mas, ao contrário, encontram-se entre os suicidas naturezas extraordinariamente tenazes, ambiciosas e até ousadas. Mas assim como há naturezas que caem em febre diante da mais ligeira indisposição, assim propendem essas naturezas a que chamamos "suicidas" e que sempre são muito mais delicadas e sensíveis à menor comoção, a entregar-se intensamente à coragem a autoridade suficientes para ocupar-se do homem, em vez de fazê-lo simplesmente no mecanismo dos fenômenos vitais, se tivéssemos uma verdadeira Antropologia, uma verdadeira Psicologia, tais fatos seriam conhecidos de todos.

O que foi dito acima a propósito dos suicidas só diz respeito obviamente à superfície; é psicologia, portanto uma parte da física. Do ponto de vista metafísico, o assunto aparece de outra forma e muito mais claro, pois, vistos assim, os "suicidas" se nos apresentam como perturbados pelo sentimento de culpa inerente aos indivíduos, essas almas que encontram o sentido de sua vida não no aperfeiçoamento e moldagem do ser, mas na dissolução, na volta à mãe, a Deus, ao Todo. Muitas dessas naturezas são inteiramente incapazes de cometer suicídio real, porque têm uma profunda consciência do pecado que isso representa. Para nós, entretanto, são, apesar disso, suicidas, pois vêem a redenção na morte e não na vida; estão dispostos a eliminar-se e a entregar-se, a extinguir-se e a voltar ao princípio.

Assim como toda força pode converter-se em fraqueza (e em certas circunstâncias deve fazê-lo, necessariamente), assim, ao contrário, o suicida típico pode fazer de sua aparente debilidade uma força e um escudo, o que acontece aliás com certa freqüência. A estes pertenciam também Harry, o Lobo da Estepe. Como milhares de seus semelhantes, fazia da idéia de que o caminho da morte estava pronto para ele a qualquer momento, não uma quimera juvenil e melancólica, mas antes encontrava nesse pensamento um apoio e um consolo. É verdade que nele, como em todos os homens de sua espécie, cada comoção, cada dor, cada desesperada situação da vida, despertava imediatamente desejo de livrar-se de tudo por meio da morte. Mas, pouco a pouco, foi transformando em seu interior essa tendência numa filosofia que era, na verdade, propensa à vida. A profunda convicção de que aquela saída de emergência estava constantemente aberta lhe dava forças, fazia-o sentira curiosidade de provar seu sentimento até às últimas instâncias. E quando se via na miséria, podia às vezes sentir com furiosa alegria uma espécie de prazer em sofrer: "Estou curioso por saber até que ponto um homem pode resistir. E quando alcançar o limite do suportável, basta abrir a porta e escapar." Há muitos suicidas que extraem força extraordinária deste pensamento.

Por outra parte, a todos os suicidas é familiar a luta contra a tentação do suicídio. Cada um deles sabe muito bem, em algum canto de sua alma, que o suicídio, embora seja uma fuga, é uma fuga mesquinha e ilegítima, e que é mais nobre e belo deixar-se abater pela vida do que por sua própria mão. Tendo consciência disso, a mórbida consciência que é praticamente a mesma daqueles satisfeitos consigo mesmos, os suicidas em sua maioria são impelidos a uma luta prolongada contra o próprio vício. O Lobo da Estepe era bastante afeito a esse tipo de luta; nela já havia combatido com várias armas. Finalmente, aos quarenta e seis anos de idade, deu com uma idéia feliz, mas não inofensiva, que lhe causava, não raro, algum deleite. Fixou a data de seu qüinquagésimo aniversário como o dia no qual se permitiria o suicídio. Nesse dia, convencionara consigo mesmo, podia usar a saída de emergência, segundo a disposição que demonstrasse. Então poderia ocorrer-lhe o que fosse, enfermidades, miséria, sofrimentos e amarguras, que tudo teria um limite, nada poderia estender-se além daqueles poucos anos, meses e dias, cujo número era cada vez menor. E na realidade suportava agora com mais facilidade males que antes o teriam atormentado profundamente, males que o teriam comovido até as raízes. Quando por qualquer motivo as coisas iam particularmente más, quando novas dores e perdas se vinham juntar à desolação, ao isolamento e ao desespero de sua vida, podia dizer aos seus algozes: "Esperai mais dois anos e eu vos dominarei." E logo se punha a imaginar o dia de seu qüinquagésimo aniversário, quando, logo pela manhã, começariam a chegar as cartas de felicitações, enquanto ele, tomando da navalha, despedir-se-ia das dores e fecharia a porta atrás de si. Então a gota das juntas, a depressão do espírito e todas as dores de cabeça e do estômago poderiam procurar outra vítima.


Herman Hesse