31/03/2010

Lurdes

Você anda comigo faz muito tempo e sabe que não sou esse farrapo velho que revira o lixo atrás de pão velho ou qualquer sobra de comida.
Você lembra quando eu tinha aquele terno bonito azul e colocava ele com aquela gravata que a Lurdes e mandou da Europa?
Eu ficava bonito, né?
Lembra quando eu sentava na mesa de reunião e comandava aqueles idiotas de gravata? hahahahaha bons tempos. Hoje nenhum daqueles puxa-sacos ia me reconhecer. Essa maldita barba oleosa e suja, esse cheiro de merda, mijo e poeira, essa coisa que sou e que nunca fui. Acho que nem a Lurdes me reconhecia agora...
Mas você levou a Lurdes contigo,não foi você? Desde que enterraram ela, desde que baixaram o caixão dela, você se grudou comigo e me mandou beber beber beber e fugir de casa.
Você é um filho-da-puta! Pára de rir de mim! Eu já tive carro bonito, mulheres bonitas e você me mandava beber beber e beber. Filho-da-puta!
Daqui a pouco, vem gente dar sopa para gente comer. Tou com fome. Louco por uma cachaça. Vou deitar aqui no chão e esperar. Tá frio.
Cala a boca!!!!! Como vou arranjar cachaça pra gente???? Filho-da-puta!!!!!!
Tá vendo, esqueci o que eu tava falando....
Lembrei! A sopa, a Lurdes, o caixão... Um dia eu uso de novo meu terno azul, faço a barba e você vai ver como fico bonito! Um dia, eu saio voando daqui e bebo uma cachaça com a sopa e aí acaba esse frio...
Um dia você vai parar de falar na minha cabeça e me chamar de derrotado, de filho-da-puta, de maldito... Um dia você vai calar essa boca e sumir no caixão da Lurdes... E vai ser a Lurdes que vai ficar do meu lado... Mas quem é Lurdes mesmo? Com quem eu tou falando, tou sozinho aqui no chão esperando a sopa... Tá frio...
Os caras da sopa tão chegando, alguém roubou meu cobertor. Que lugar é esse mesmo? Obrigado pela comida moço... Vou voltar pro meu papelão e comer a sopa... Tá quentinha...

EDNALDO TORRES FELICIO

19/03/2010

23/02/2010

Bluebird




"Pássaro Azul" - Charles Bukowski
(Bluebird)

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele

Eu falo "fica aí dentro,
eu não vou deixar ninguém te ver"

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair

mas eu taco uísque nele e respiro fumaça de cigarro
e as putas e os barmen e as caixas do mercado
nunca sabem que ele está aqui dentro

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele

Eu falo "fique aí, você quer me pôr em apuros?"
"você quer estragar meus trabalhos?"
"você quer estragar as vendas dos meus livros na Europa?"

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair

mas eu sou mais esperto,
só deixo ele sair de noite, às vezes
quando todos estão dormindo

Eu falo "sei que você está aí, então não fique triste"
daí o ponho de volta, mas ele ainda canta um pouco aqui dentro,
Eu não o deixei morrer totalmente.

e a gente dorme junto desse jeito
com nosso pacto secreto
e é bacana o suficiente para fazer um homem chorar

mas eu não choro, você chora?

22/02/2010

Poema - Bukowski (Legendado)

Buck foi um dos caras mais geniais que já lí. Sua poesia/prosa suja, cheia de defeitos humanos, sujeira, bebedeira e solidão, mostram o que todo o ser humano quer esconder: sua própria fragilidade.


21/02/2010

Mosca Na Sopa




Mosca Na Sopa
Raul Seixas

Composição: Raul Seixas

Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...(3x)
Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono
Eu sou a mosca
No seu quarto a zumbizar...(2x)
E não adianta
Vir me detetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar...
Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...(2x)
-"Atenção, eu sou a mosca
A grande mosca
A mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto
A zum-zum-zumbizar
Observando e abusando
Olha do outro lado agora
Eu tô sempre junto de você
Água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura
Quem, quem é?
A mosca, meu irmão!"
Eu sou a mosca
Que posou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...(2x)
E não adianta
Vir me detetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar...
Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...(2x)
Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono
Eu sou a mosca
No seu quarto a zumbizar...(2x)
Mas eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...

18/02/2010

Samba de verdade

ESPELHO
João Nogueira


Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz

Eh, vida boa
Quanto tempo faz
Que felicidade!
E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai (Bis)

Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás

Eh, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai (Bis)

E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga, em namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
Assim sem perceber eu era adulto já

Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar (Bis)


10/02/2010

Summertime

Summertime Época De Verão

Época de verão
Criança, a vida é fácil
peixes pulando fora d'àgua
E o algodão, Senhor,
O algodão está alto, Senhor, tão alto.

Seu pai é rico
E sua mãe é de tão boa aparência
Ela parece bem agora
Calma, baby, baby, baby, baby, baby,
Não, não, não, não, não chore
Não chore!

Em uma destas manhãs
Você estará crescendo, cantando animado
Você estará alargando as suas asas,
Criança, e alcançar, alcançar o céu,
Senhor, o céu.

Mas ate esta manhã
Querida, nada vai te causando alarde,
Não, não, não, não, não, não, não, não.....
não
não

Não Chore.
Não Chore.
Chore.


08/02/2010



Mulheres: gostava das cores de suas roupas; do jeito delas andarem; da crueldade de certas caras. Vez por outra, via um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina. Elas levavam vantagem sobre a gente: planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas. Enquanto os homens viam futebol, tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam na gente, concentradas, estudiosas, decididas: a nos aceitar, a nos descartar, a nos trocar, a nos matar ou simplesmente a nos abandonar. No fim das contas, pouco importava; seja lá o que decidissem, a gente acabava mesmo na solidão e na loucura.
Charles Bukowski

um trem pras estrelas (sonhar ainda é possível)

22/01/2010

O que será

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta os olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida nem nunca terá
O que não tem remédio nem nunca terá
O que não tem receita...

O que será que será,
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso nem nunca terá
O que não tem cansaço nem nunca terá,
O que não tem limite...

O que será que me dá,
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem governo nem nunca terá,
O que não tem juízo...

20/01/2010

Pensamento budista



"Só existem dois dias do ano em que nada pode ser feito: um se chama ontem e o outro, amanhã. Portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e, principalmente, viver."
Dalai Lama

25/12/2009

HISTÓRIA DE NATAL 1 ou o dia em que virei anjo


Carapicuíba. Periferia de São Paulo. Noite de Natal. Eu, sozinho, caminhando pelos escombros da cidade escura.
Barulho de fogos lá loooooonge e eu andando cabisbaixo, desviando dos ratos de minha alma, sem motivos para celebrar.
Foi quando vi deitado na calçada um homem com a cabeça sangrando. Mendigo. Sujo. Provavelmente bêbado, o farrapo de gente só era notado porque incomodava o andar dos que corriam apressados para a ceia e para a celebração do Deus Vivo,o Papai Noel.
Se todos desviavam do farrapo, por que diabos eu não desviaria? Mas não desviei.
Olhei o ser-humano caído, cabelos embasbacados de sangue, sozinho, tão sozinho quanto eu, mas um tanto mais jogado que eu. Foi quando um rapaz completamente embriagado vindo sei lá de onde, virou-se pra mim e disse: "cara, vamos leva-lo ao pronto-socorro?"
E assim fizemos, arrastamos o mendigo até o pronto-socorro. Colocamos ele numa maca. E entre perguntas de "onde vocês o encontraram?" "O que vocês são dele?", saímos à francesa certos de que o farrapo seria menos farrapo e mais gente nas mãos de enfermeiros, médicos e o diabo a quatro do pronto-socorro.
Já na rua, meu amigo de ocasião, o rapaz bêbado que me ajudou a levar o mendigo ao pronto-socorro, disse: "Cara, as pessoas passavam por cima do mendigo, pisavam em seu sangue e não paravam. Nós paramos e o socorremos. Cara, pra esse mendigo nós somos anjos." E se despediu na próxima esquina com um "Feliz Natal".
Eu fui pra minha adormecida casa, abri minha lata de cerveja no escuro e me senti sim, um anjo de Natal, um anjo de ocasião. Um anjo, torto, ateu, sozinho, mas um anjo. Ainda que apenas para aquele mendigo.
Recolhendo as asas nas costas, iniciei meu porre solitário de Natal.


EDNALDO TORRES FELÍCIO
25/12/2009

20/12/2009

reflexão de Natal

Não é uma pena?
Não é de se envergonhar
como despedaçamos nossos corações
e causamos dor um ao outro?
Como pegamos nosso amor
sem pensar em nenhum momento
e nos esquecemos de devolvê-lo,
Isso não é uma pena?

Algumas coisas demoram tanto,
mas como posso explicar isso?
Quando nem todo mundo
pode ver que somos todos iguais.
E por causa de suas lágrimas,
seus olhos não podem enxergar
a beleza que os cerca.
Isso não é uma pena?

Não é uma pena?
Não é de se envergonhar
como despedaçamos nossos corações
e causamos dor um ao outro?
E por causa de suas lágrimas,
seus olhos não podem enxergar
a beleza que os cerca.
Isso não é uma pena?

Esquecendo-se de devolvê-lo...
Isso não é uma pena?
Esquecendo-se de devolvê-lo...
Isso não é uma pena?

Que pena,
Que pena...
Que pena...







07/12/2009

Você vai me apunhalar

Você vai conseguir enfim me apunhalar, você vai me velar, chorar, vai me cobrir e me ninar...




Você vai me Seguir
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque

Você vai me seguir aonde quer que eu vá
Você vai me servir, você vai se curvar
Você vai resistir, mas vai se acostumar
Você vai me agredir, você vai me adorar
Você vai me sorrir, você vai se enfeitar
E vem me seduzir
Me possuir, me infernizar
Você vai me trair, você vem me beijar
Você vai me cegar e eu vou consentir
Você vai conseguir enfim me apunhalar
Você vai me velar, chorar, vai me cobrir
e me ninar

26/11/2009

MUPPETS CANTANDO BOHEMIAN RHAPSODY

Galera, é espetacularmente genial o vídeo abaixo.

Essa é para os fãs de Queen e dos Muppets.

São os Muppets recriando o clássico vídeo de Bohemian Rapsody. Hilário!

No vídeo, os personagens da série só deixaram de fora o trecho da letra de Freddie Mercury que diz "Mamãe, acabei de matar um homem / Encostei a arma em sua cabeça / Puxei o gatilho, agora ele está morto", versos impróprios para o público infantil. A solução "encontrada" pelo irascível muppet Animal é engenhosa - além de hilariante!




Veja agora o vídeoclip original



E aí, curtiu?

20/11/2009

O MEDO e o Homem


O Medo andava de lado
olhava de soslaio
falava baixo
e se esgueirava pelas sombras;

O Medo caminhava elíptico
curvando sobre os pés
que se arrastavam
pesados;

O Homem, por sua vez,
titubeava no espaço
pálido, arredio, indeciso,
O Homem não tinha mira, nem seta.

Na rua morta,
O Homem encontrou o Medo e se encolheu.
O Medo sugou o Homem
à partir de suas mãos

O Homem deixou-se engolir:
pernas, braços, tórax
sonhos, amplidão e alma.

Até que não havia nem Homem nem Medo

Havia apenas o escuro
numa lacuna triste
daquilo que poderia ter sido, mas nunca foi.

Homem e Medo são hoje amálgama.


EDNALDO TORRES FELÍCIO